domingo, 1 de julho de 2012

VISUALIDADES








Documenta
A Documenta  acontece na cidade de Kassel, na Alemanha, desde 1955, a cada cinco anos. Continua sendo  a mostra de arte mais importante do planeta, seguida pela Bienal de Veneza.
Documenta 2
A primeira edição da Documenta de Kassel foi organizada pelo artista plástico Arnold Bode com a intenção de mostrar a arte alemã  “degenerada”, proibida de ser mostrada até o fim da segunda guerra. O nacional-socialismo detestava a arte de “vanguarda”.
Documenta 3
Antes da nona edição, a mostra era praticamente eurocêntrica. Foi o belga Jan Hoet quem mudou isso incorporando todos os continentes. O Brasil teve ali quatro representantes: Cildo Meireles, Waltércio Caldas, Jac Leirner e José Rezende. Aquela foi a primeira Documenta que visitei, e ainda a tenho como a melhor (fui a todas desde então). Anos depois, o mesmo Hoet, juntamente com Phillipe Vancauteren, foi curador da Bienal Ceará América (projeto nosso à frente do MAC Dragão do Mar),  mas esse é um assunto para outra ocasião.
Documenta 13
Não há na atual edição da mostra alemã qualquer semelhança com as  recentes grandes exposições do gênero, cada vez mais afinadas com as feiras de arte. A arte, aqui, parece reencontrar o rumo de sua história, abrindo espaço para a prospecção. Causou uma certa polêmica o deslocamento de documentações históricas e experimentos científicos (físicos, biológicos, etc) para o universo da arte (por mais expandido que ele se encontre nesta edição da Documenta), o que pode ser entendido também como expansão das colocações de Duchamp que permearem  a arte do último século. Nada é espetacular ou  majestoso, e não há qualquer tipo de apelo midiático. É uma mostra para quem tem grande repertório em arte contemporânea.
Deslocamentos
Quem não entende de física quântica, certamente passará batido pela sala dedicada às pesquisas do cientista Anton Zeilinger, mas, mesmo quem não conhece muito de  botânica poderá se comover com as pinturas documentais do padre – jardineiro  da Bavária Korbinian Aigner, feitas quando cultivava maçãs no campo  de concentração em Dachau, onde era prisioneiro. Desse cultivo, aliás, surgiram, além das pinturas, quatro novas variedades da fruta (batizadas com seu nome, como de costume nessa área). Em Kassel foram plantadas algumas e isto cria uma delicada relação com outras obras que foram ficando na cidade ao longo da existencia da Documenta como os 7000 Carvalhos de Beuys, e as esculturas de Claes Oldenburg e Jonathan Borowsky. Pode-se “vivenciar “também sem dificuldades a proposta de criação, no parque Karlsaue, de uma espécie de ecossistema experimental, pelo artista francês  Pierre Huyghe, juntando, como ele mesmo diz,  “artefatos, elementos inanimados e organismos vivos ... plantas, animais, seres humanos, bactérias...O que ocorre entre estes elementos  não tem nenhuma script. Há antagonismos, associações, hospitalidade e hostilidade, corrupção, separação e degeneração ou colapso” O que resultar disso certamente se juntará às heranças acima citadas. 

Pierre Huyghe - Untilled

No mesmo parque, numa ponte improvisada com pequenas barcaças, o suiço Christian Philipp Müller  criou uma horta de acelgas de colorações  e sabores variados onde o visitante é convidado a provar as folhas desfrutando de seus diferentes sabores.


Christian Philipp Müller - The New World


Analogia
A inclusão de nomes como  Salvador Dalí, Konrad Zuse, Giorgio Morandi, Gustav Metzger,  Maria Martins, Man Ray e Julio González, pode parecer estranha  num contexto como este, mas faz parte de uma das vertentes curatoriais que pretende  fazer uma analogia entre os dias atuais e os anos 30 e 40 pelo fato do mundo nestes dois tempos  enfrentar  crises de naturezas similares, incluindo aí algumas guerras.
Fotografia e Vídeo
A fotografia  é a grande ausente nesta mostra  e os vídeos são quase sempre complementos de instalações ou performances. São estes, no entanto, fundamentais nos  momentos mais fortes da mostra como na obra The Refusal of Time do  sul africano Willian Kentridge, tão emocionante que arranca aplausos no final, e em Alter Bahnhof Video Walk, da dupla canadense Janet Cardiff e George Bures Miller que nos deixa atordoados (mas também encantados), confundindo passado e presente, real e virtual,  ao seguirmos, numa estação de trem, o percurso repleto de ações (música, dança, performances) filmado dias antes pelos artistas, o qual visualisamos  na telinha de um ipod orientados pela voz de Cardiff. A dupla também criou uma comovente instalação sonora mas absolutamente imagética, sob as àrvores do parque Karlsaue, onde podemos vivenciar os bombardeios aéreos sofridos pela cidade de Kassel, provavelmente naquele mesmo local, durante a segunda guerra mundial. 
Merece honrosa menção também o vídeo Raptor’s Rapture,da dupla Allora e Cauzadilla exibido num Bunker. Nele uma flautista especializada em instrumentos pré-históricos extrai som de uma flauta fabricada pelo homo-sapiens há 35 mil anos, com o osso da asa de um grifo (um dos mais antigos habitantes da terra). A música começa quando começa a humanidade. No vídeo, a flautista toca na presença desta mitológica ave quase extinta.



Willian Kentridge - The Refusal of Time (trecho)
                                         
 
Janet Cardiff e George Bures Miller - Alter Bahnhof Video Walk


Janet Cardiff e George Bures Miller - For a Thousand Years




Merece honrosa menção também o vídeo Raptor’s Rapture,da dupla Allora e Cauzadilla exibido num Bunker. Nele uma flautista especializada em instrumentos pré-históricos extrai som de uma flauta fabricada pelo homo-sapiens há 35 mil anos, com o osso da asa de um grifo (um dos mais antigos habitantes da terra). A música começa quando começa a humanidade. No vídeo, a flautista toca na presença desta mitológica ave quase extinta.


Allora & Calzadilla - Raptor's Rapture ( frame de vídeo) 

Pluralidade
A compreenção de  grande parte das obras , depende de bulas emanadas por elas próprias e não de relações estabelecidas na elaboração de um discurso.  Muitas indagações ficarão sem resposta, segundo a própria curadora Carolyn Christov-Bakargiev. Não é fácil, por exemplo,  encontrarmos uma explicação para sala no térreo do museu Fridericianum onde a  curadora reuniu inúmeras obras aparentemente sem conexão. De cerâmicas de 2000 antes de Cristo a Giorgio Morandi; de peças de uso pessoal de Hitler à foto de um pequeno lago no Cambodja que teve origem com a explosão de uma bomba durante a guerra do Vietnan. De Lawrence Weiner  a objetos danificados durante a guerra civil libanesa. Esta sala, porém, nos seus mínimos detalhes, nos acompanha como um guia por toda a visita, permanecendo conosco muito tempo depois. É aconselhável, portanto, que se inicie o percurso pelo  museu Fridericianum, grande  templo da mostra ( até a Documenta 9 era o único espaço expositivo).
Pratchaya Phinthong - Sleeping Sickness

Fridericianum
Logo na entrada do museu somos surpreendidos pelo vazio das tres grandes salas de entrada (nenhuma referencia à nossa penúltima bienal, certamente, embora aquela de Ivo Mesquita e a anterior a ela, de Lisette Lagnado, dialoguem melhor com esta Documenta do que a mais recente, que optou por não correr riscos ). Porém, depois de algum tempo, sobretudo quando lemos uma legenda na parede, é que percebemos que ali existe uma brisa totalmente artificial de procedência não perceptível, obra do inglês Ryan Gander. Uma quarta sala vazia contém a peça sonora da paquistanesa Ceal Floyer, na qual ouvimos repetidamente  o refrão de uma canção de Tammy Wynette que diz “I’ll just Keep on/ ‘til i get it right”.  Quase na mesma “paleta” está a obra do tailandes  Pratchaya Phinthong, na qual um casal de moscas Tse Tse (ela fértil, ele esterilizado), dorme(ou está morto). Aqui é uma cúpula de vidro quem define: Isto é arte. O artista chama a atenção de maneira crua, nada “poética”, para a possibilidade de métodos ambientalmente sustentáveis para o impedimento da disseminação da doença do sono que atinge milhares de pessoas, sobretudo na África, todos os anos.

Drama
No próprio Fridericianum duas obras se contrapõem, no conteúdo e no formato, às citadas acima, por exibirem dramas intensos. A primeira é a belíssima série de 769 gouaches autobiográficos da alemã judia Charlotte Salomon, morta em Auscwitz, nos quais descreve através de imagens e textos como foi sua vida e a de sua família  desde o suicídio da avó, em 1913, até o fortalecimento do nazismo ao qual sucumbiu. A outra, do argelino-Francês Kader Attia, intitulada The repair from occident to extra-occidental cultures, coloca-nos dentro de um labirinto de estantes de estrutura quase museológica, com livros de cunho colonialista e esculturas africanas de rostos desfigurados, até chegarmos a uma projeção de slides com imagens chocantes de rostos mutilados de soldados brancos europeus que lutaram na primeira guerra mundial, que muito se assemelham às tradicionais máscaras africanas.

Charlotte Salomon - From Life? Or Theater? A Play with Music 


Kader Attia -The repair from occident to extra-occidental cultures

Maratona
Há outros (grandes) prazeres durante o longo percurso que nos faz circular por quase toda a cidade. A Documenta está espalhada por museus, parques, galerias, Hotéis, confeitaria, hospital, estação de trem, e até um bunker da segunda guerra mundial. A seguir mostraremos algumas imagens dos trabalhos que achamos mais significativos.


Yan Lei - Limited Art Project


  
      Lara Favaretto - Momentary Monument IV


 
Adrián Villar Rojas

                                                                    
 

Istvan Csakany - Sewing Room

 Rossella Biscotti - The Trial


Apichatpong Weerasethakul - weisser


Theaster Gates - 12 Ballads for the Huguenot House


Geoffrey Farmer - Leaves of Grass


Sam Durant - Scaffold


Ana Maria Maiolino - Here & There


                                          
Massimo Bartolini - Untitled ( Wave)


Doug Ashford - Many Readersof 1 Event


Francis Alÿs - Untitled


Maria Martins



Llyn Foulkes

sexta-feira, 1 de junho de 2012

CINEFILIA


Florinda Bolkan
Nunca, em tempo algum, uma atriz brasileira fez tanto sucesso no exterior quanto a cearense Florinda Bolkan. Nem Carmem Miranda, nem Sonia Braga... Florinda viveu na elite do cinema europeu, atuou em mais de 50 filmes  tendo sido dirigida por gênios como Visconti e De Sica, e por mestres como Elio Petri, Giuseppe Patroni Griffi, Enrico Maria Salerno, Damiano Damiani, Michael Deville, Richard Lester, Dino Risi. Ganhou 3 prêmios David di Donatello, o “Oscar” italiano (marca só atingida por Sofia Loren, Claudia Cardinale e Monica Vitti) e um troféu de melhor atriz pelos críticos de Los Angeles.



Cannes e Oscar
Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri, que é provavelmente o melhor filme político da história, é protagonizado por Florinda e Gian Maria Volonté. O filme venceu o festival de Cannes e o Oscar de Melhor filme estrangeiro.



Andy Warhol
Em 1981, Florinda entrou para a galeria de retratos de celebridades pintados pelo grande ícone da arte pop estadunidense, figurando ao lado de Elizabeth Taylor, Jackie Onassis, Mao Tse Tung, Marilyn Monroe, Michael Jackson, Mick Jagger, Rainha Elizabeth, Princesa Diana, Prince, Grace Kelly, Freud, Liza Minneli, Muhamed Ali, Ingrid Bergman, Brigite Bardot, Nelson Mandela, Che Guevara, Groucho Marx, Elvis Presley, entre outros. Do Brasil, que eu me lembre, só Pelé teve o mesmo privilégio.







segunda-feira, 28 de maio de 2012

CINEFILIA

Flores da Guerra
Acabei de ver Flores da Guerra, de Zhang Yimou, e no calor da emoção, digo que é um dos filmes mais bonitos que já ví. Em 1937, quando as tropas do exercito japonês invadem e dominam a cidade chinesa de  Nanquim, todo tipo de atrocidade é cometida, inclusive estupro de menores, resultando em mais de 200 mil mortos. Neste ambiente, o diretor foca sua lente num episódio em que o agente funerário estadunidense de caráter duvidoso John Miller (Christian Bale) encontra-se confinado numa igreja com jovens e virginais estudantes de um convento e um grupo de  prostitutas. O objetivo de todos é fugir dali, e para isso terão também que superar os conflitos pessoais. A narrativa densa, inventiva e poética, nos deixa absortos até o último fotograma. As imagens são de grande plasticidade, o que não é surpreendente quando se trata do realizador de Herói, O Clã das Adagas Voadoras e A Maldição da Flor Dourada.  Até Christian Bale, ator que nunca encantou, está bem. Aliás, muito bem, assim como todos os coadjuvantes. Como de costume ( já aconteceu com Gong Li, Zhang Ziyi e mais recentemente com Dongyu Zhou, Yimou lança mais uma atriz fenomenal: Ni Ni, como a prostituta Yu Mo. Também tem presença marcante o garoto Huang Tianyuan, como George, que rouba todas as cenas em que aparece. Zhang Yimou, ao contrário do que dizem alguns críticos de cinema, está cada vez melhor.






 

terça-feira, 1 de maio de 2012

VISUALIDADES


 
Peter Fischli e David Weiss 
                                                                                        
Perda
Morreu David Weiss, artista suiço que formava com Peter Fischli a famosa dupla Fischli & Weiss. Tinha 66 anos e lutava contra um câncer desde setembro último. Herdeiros de Duchamp (os trabalhos da dupla recontextualizavam objetos cotidianos), tornaram-se notáveis, sobretudo, na produção de vídeos, embora tenham expressiva atuação na escultura e na instalação. Em 2003 ganharam Leão de Ouro na Bienal de Veneza (prêmio máximo da arte mundial). Seu vídeo mais famoso é The Way Things Go (1986-1987) no qual arquitetam ciclo de ações sequenciais imprevisíveis, físicas e sonoras, espécie de efeito dominó com objetos encontrados num velho galpão (cenário da ação), que dura  30 minutos sem cortes. Este vídeo foi apresentado no MAC Dragão do Mar em 2010, como parte da mostra De Picasso a Gary Hill, da qual fui curador juntamente com Roberto Galvão.

Trecho do vídeo The Way Things Go, de Fischli &Weiss